20 de junho de 2026

Seguro chinês – 20/06/2026 – Opinião

Fotografia tirada durante a reunião da Cosban. De pé, Geraldo Alckmin, na esquerda, e Han Zheng, na direita, apertam as mãos; Os dois vestem terno escuro e gravata vermelha. Alckmin é um homem branco, calvo. Ele usa óculos. Zheng é um homem chinês, com cabelos pretos, lisos. Ele também usa óculos.

China e Brasil decidiram adiar para 2027 a reunião bianual da Cosban (Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação), a principal estrutura de coordenação da relação entre os dois países.

A Cosban centraliza os principais assuntos da agenda bilateral. Na última edição, em 2024, mais de 20 ministérios e agências participaram dos trabalhos.

Além da pauta técnica, a comissão tem forte peso político por ser liderada pelos respectivos vice-presidentes.

A justificativa para o adiamento foi a agenda do vice-presidente chinês, Han Zheng, que não poderia viajar ao Brasil no primeiro semestre. Já Geraldo Alckmin não teria disponibilidade no restante do ano porque estará dedicado à eleição.

Qualquer que tenha sido o motivo, a postergação produz um efeito conveniente para Pequim. Ao transferir a reunião para 2027, a China passa a contar com a principal instância bilateral de coordenação justamente no primeiro ano do próximo governo brasileiro —incluindo a hipótese de uma vitória de Flávio Bolsonaro, que poderia levar de volta ao Planalto atores com uma clara agenda anti-China.

Em 2019, quando Jair Bolsonaro promovia uma política de alinhamento automático com os EUA, o governo chinês articulou com o então vice-presidente Hamilton Mourão a reativação da Cosban.

Mourão voou a Pequim em maio daquele ano. Voltou a Brasília com a mensagem de que o Brasil não podia prescindir de seu maior parceiro comercial.

O episódio ilustra como Pequim usou um canal institucional para driblar os setores mais ideologizados do bolsonarismo.

Caso Flávio vença, não é difícil imaginar que a China tente repetir a estratégia: mapear interlocutores pragmáticos e lembrar o grau de dependência em relação ao país asiático (a corrente de comércio já chega a US$ 170 bi). Nessa hipótese, ter a Cosban pronta para ser acionada será mais uma carta na manga dos chineses.



Fonte ==> Folha SP

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