China e Brasil decidiram adiar para 2027 a reunião bianual da Cosban (Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação), a principal estrutura de coordenação da relação entre os dois países.
A Cosban centraliza os principais assuntos da agenda bilateral. Na última edição, em 2024, mais de 20 ministérios e agências participaram dos trabalhos.
Além da pauta técnica, a comissão tem forte peso político por ser liderada pelos respectivos vice-presidentes.
A justificativa para o adiamento foi a agenda do vice-presidente chinês, Han Zheng, que não poderia viajar ao Brasil no primeiro semestre. Já Geraldo Alckmin não teria disponibilidade no restante do ano porque estará dedicado à eleição.
Qualquer que tenha sido o motivo, a postergação produz um efeito conveniente para Pequim. Ao transferir a reunião para 2027, a China passa a contar com a principal instância bilateral de coordenação justamente no primeiro ano do próximo governo brasileiro —incluindo a hipótese de uma vitória de Flávio Bolsonaro, que poderia levar de volta ao Planalto atores com uma clara agenda anti-China.
Em 2019, quando Jair Bolsonaro promovia uma política de alinhamento automático com os EUA, o governo chinês articulou com o então vice-presidente Hamilton Mourão a reativação da Cosban.
Mourão voou a Pequim em maio daquele ano. Voltou a Brasília com a mensagem de que o Brasil não podia prescindir de seu maior parceiro comercial.
O episódio ilustra como Pequim usou um canal institucional para driblar os setores mais ideologizados do bolsonarismo.
Caso Flávio vença, não é difícil imaginar que a China tente repetir a estratégia: mapear interlocutores pragmáticos e lembrar o grau de dependência em relação ao país asiático (a corrente de comércio já chega a US$ 170 bi). Nessa hipótese, ter a Cosban pronta para ser acionada será mais uma carta na manga dos chineses.
Fonte ==> Folha SP


