O Ministério Público de São Paulo (MPSP), deflagrou nesta quinta-feira (28) mais uma operação que mira o uso de fintechs pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) para lavar dinheiro do tráfico de drogas e armas. A ação Fluxo Oculto é um desdobramento da Carbono Oculto, realizada em agosto do ano passado que descobriu um esquema bilionário de fraude em combustíveis pela facção, movimentação de recursos dos atos ilícitos e aplicação em fundos de investimentos em empresas financeiras da Avenida Faria Lima, via de São Paulo considerada o “coração” do mercado financeiro brasileiro.
Nesta nova fase, a promotoria investiga seis fintechs que teriam começado a ser usadas pelo PCC após as utilizadas anteriormente terem sido bloqueadas ou liquidadas após a deflagração da operação Carbono Oculto. Os nomes das empresas ainda não foram divulgados, mas a suspeita é de que tenham movimentado R$ 26 bilhões da facção entre os anos de 2022 e 2024.
“Um poderoso núcleo financeiro, sendo utilizadas para compensações financeiras internas entre diversas distribuidoras e postos de combustíveis, compensações financeiras entre empresas e fundos de investimentos administrados pela organização criminosa, pagamentos de colaboradores e pagamentos de gastos e investimentos pessoais dos principais operadores”, afirmou o MPSP em nota.
Durante a operação Carbono Oculto, em agosto do ano passado, as investigações descobriram que o PCC tinha R$ 30 bilhões investidos em 40 fundos geridos por fintechs da Faria Lima. Investigadores apontaram que estas operações eram a etapa final do processo de lavagem e há indícios de que administradoras sabiam da origem ilícita dos valores, mas teriam omitido informações para impedir o rastreamento.
Já a lavagem de dinheiro em si dos mais diversos esquemas criminosos do PCC consistia em utilizar fintechs que operam sem transparência em suas transações por meio das chamadas “conta bolsão”, em que reúnem os recursos de diversos clientes em apenas uma conta usada para compensação no Sistema Financeiro Nacional (SFN). Três meses depois da operação Carbono Oculto, o Banco Central proibiu a utilização desta operação, mas que, segundo a investigação, continuou a ocorrer por meio de formas diferenciadas.
Entre as fintechs que foram alvos do MPSP no ano passado está a Reag que, posteriormente, se descobriu fazer parte da rede de influência e operações suspeitas de fraude ligadas ao Banco Master. A empresa foi liquidada pelo Banco Central.
Segundo as autoridades, foram apreendidas grandes quantidades de dinheiro em espécie de moedas como Real, Euro e Dólar.
Movimentação milionária de recursos
A Receita Federal informou que as seis fintechs teriam movimentado, ainda, R$ 365 milhões em criptoativos suspeitos de irregularidades para organizações criminosas investigadas no âmbito de outras operações.
Das fintechs alvos nesta quinta-feira (28), três não prestaram contas à Receita Federal sobre os investimentos, medida que passou a ser obrigatória após a operação do ano passado. Outras três declararam ter movimentado cerca de R$ 8 bilhões entre janeiro e dezembro de 2025.
“Houve a constatação de operações suspeitas, principalmente com depósitos realizados em espécie, procedimento estranho à natureza de uma instituição de pagamento, e contas abertas em outras instituições de pagamento, gerando uma dupla camada de ocultação”, ressaltou a Receita Federal.
Ao todo, esta nova fase cumpre 55 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso do Sul por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), a Receita Federal, a Agência Nacional de Petróleo (ANP), a Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, a Procuradoria-Geral do Estado, a Polícia Militar e a Polícia Civil.
Adulteração de combustíveis
Outra frente da operação desta quinta-feira (28) mira o desvio de nafta petroquímica para abastecimento irregular de postos de combustíveis na Grande São Paulo. A apuração encontrou uma estrutura de falsificação documental e simulação de venda de solventes para empresas-fantasma.
Durante a operação Carbono Oculto, em agosto do ano passado, as autoridades descobriram que o PCC importava nafta e metanol através do Porto de Paranaguá, no Paraná, e enviado para usinas e distribuidoras próprias da facção para adulterar gasolina e etanol e lavar dinheiro. Estima-se que a rede sofisticada que operava o esquema tenha movimentado cerca de R$ 52 bilhões ao longo de quatro anos, lavando os lucros através de usinas, frotas de caminhões e fundos imobiliários.
Segundo a denúncia, os investigados abriram empresas em vários estados utilizando parentes, pessoas em situação de vulnerabilidade social e até presos como laranjas. Essas empresas apareciam formalmente como compradoras de solventes, mas o produto era desviado para abastecer o mercado clandestino de combustíveis.
“Os recursos financeiros obtidos com o esquema eram então remetidos a fundos de investimentos para ocultar os reais beneficiários da fraude. Foram identificados quatro fundos que participavam do esquema e são alvos da operação, juntamente com duas administradoras de recursos e duas gestoras”, pontuou o MPSP.
Quatro fundos de investimento passaram a ser alvo direto da operação, além de duas administradoras de recursos e duas gestoras. Segundo a promotoria, os fundos investigados possuem patrimônio estimado em R$ 205 milhões e registraram crescimento superior a 200% em pouco mais de um ano.
Para os investigadores, a operação representa mais um passo no combate ao “ecossistema criminoso” que sustenta financeiramente o crime organizado no país. O foco agora, completa a promotoria, é rastrear novas conexões, identificar outros participantes e interromper os mecanismos que garantem o fluxo de dinheiro das facções criminosas.
Na época da deflagração da operação Carbono Oculto, os então ministros Ricardo Lewandowski (Justiça e Segurança Pública) e Fernando Haddad (Fazenda) afirmaram que o PCC migrou da “ilegalidade para a legalidade” com uma forte atuação no setor de combustíveis que vem de anos.
Fonte ==> Gazeta


