Não é novidade a enorme influência da Faculdade de Direito da USP, no largo São Francisco, em São Paulo, na vida política brasileira. Ao longo da história, muitos de seus alunos se tornaram personagens proeminentes da República e do sistema judiciário. O que pouco se sabe é sobre uma sociedade secreta surgida nas suas dependências no início da década de 1830, a Burschenschaft Paulista, conhecida como Bucha. Ela foi determinante para o protagonismo alcançado pela instituição em várias esferas de poder.
Tratou-se de uma confraria de professores e estudantes criada pelo docente alemão Johann Julius Gottfried Ludwig Frank, ou Júlio Frank. Com cunho filantrópico, visava reunir os alunos mais destacados da faculdade para estudar, se ajudar mutuamente e defender o ideário liberal. Conforme foi evoluindo, passou a influir na política nacional. Seus membros facilitavam a ascensão profissional uns dos outros, permitindo que muitos alcançassem altos cargos públicos. Tudo, porém, era envolto em mistério.
Frank nasceu na cidade de Gotha em 1808 e estudou na Universidade de Göttingen, de onde acabou sendo expulso após acumular dívidas e desafetos. Destacou-se, porém, em várias áreas do conhecimento, como Filosofia, História, Letras e Matemática. Veio para o Brasil em 1828: desembarcou no Rio de Janeiro, seguiu para São Paulo e imediatamente viajou para a cidade de Sorocaba. Lá, passou a dar aulas particulares para filhos de cafeicultores que pretendiam entrar na Faculdade de Direito.
Dado seu brilhantismo, ele acabou sendo trazido pelos alunos para São Paulo e logo assumiu uma vaga de professor no chamado Curso Anexo, preparatório para o Curso Jurídico. Percebendo que muitos alunos não conseguiam arcar com os custos de vida na cidade, propôs que fosse criada uma fraternidade nos moldes das que existiam na Alemanha, também chamadas Burschenschaft, nas quais a assistência aos estudantes mais pobres que demonstravam potencial era garantida pelos próprios colegas abastados.
A Bucha nasceu secreta para não constranger os estudantes que eram auxiliados nem os doadores. Surgiu também cercada de rituais esotéricos, com um código moral e uma rígida hierarquia, que ia dos Catecúmenos até o Conselho dos Apóstolos, com 12 membros, e o Conselho dos Divinos, composto pelos já formados com maior destaque social. Para entrar no grupo era preciso receber um convite e fazer um juramento: “Juro pela minha honra jamais revelar a quem quer que seja o que me vai ser confiado hoje. Serei o mais infame dos homens se faltar a esse meu juramento.”
Num movimento de ajuda mútua, alunos que se formavam advogados e tinham emprego conseguiam colocação para os mais jovens. Anualmente, acontecia na faculdade a Festa da Chave, em que o novo líder estudantil da confraria, chamado de chaveiro, era nomeado.
O apogeu da organização aconteceu no período republicano, entre 1889 e 1930. Praticamente todos os presidentes da República Velha fizeram parte da Bucha, como os paulistas Prudente de Moraes, Campos Sales, Rodrigues Alves e Washington Luís, e os mineiros Afonso Pena, Venceslau Brás e Artur Bernardes. Ruy Barbosa e Quintino Bocaiúva também foram membros.
Frank conquistou uma vaga de professor em 1834 e se manteve no posto até 1841, quando morreu sem ver o poderio que sua sociedade alcançaria. Como era protestante e não podia ser enterrado nas igrejas da cidade –o único cemitério público que existia era o dos Aflitos, na Liberdade, destinado à população marginalizada–, ele acabou sepultado no pátio interno da faculdade. Dessa forma sua memória foi preservada, assim como a da Bucha, que acabou na Revolução de 1930, após 100 anos de existência. Teorias conspiratórias, porém, dão conta de que ela continuou a existir na mais absoluta clandestinidade.
Fonte ==> Folha SP


