Li surpreso a reportagem “Estudo reforça pioneirismo do franco-brasileiro Hercule Florence na invenção da foto” (16/9), publicada nesta Folha. No texto, constatei a omissão do meu nome e das minhas pesquisas onde comprovo a ocorrência de investigações precursoras com materiais fotossensíveis que o levaram a desenvolver um meio de obter imagens fotográficas sobre papel: uma descoberta isolada da fotografia no interior da Província de São Paulo, em 1833.
Em 1976, os exemplares fotográficos produzidos por Florence, remanescentes de suas experiências, foram amplamente analisados e comprovados pelos laboratórios do Rochester Institute de Technology, instituição que propiciou apoio fundamental ao meu projeto.
Ao longo de 50 anos seguiram-se um sem-número de eventos acadêmicos, artigos e conferências na Europa, EUA e América Latina sobre o tema; a obra de Florence ganhou notável difusão, como atesta a historiografia nacional e internacional.
Em 1977, publiquei “Hercule Florence – A Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil”, atualmente na quarta edição pela Edusp, obra que ganhou versões em diferentes idiomas. Em sua reportagem, entretanto, o jornalista silencia sobre esses fatos: quais seriam as razões dessa omissão?
É importante nos atermos às experiências de Florence com materiais fotossensíveis, pioneira nas Américas e contemporânea a de outros precursores como Daguerre e Fox Talbot na Europa. Com base nas informações recebidas pelo boticário Joaquim Corrêa de Mello (1816-77) sobre as propriedades do nitrato de prata, Florence obteve, em 20 de janeiro de 1833, sua primeira fotografia com uma câmera obscura de construção caseira.
Diante da ausência de oficinas impressoras, Florence viu-se motivado a pesquisar por técnicas de impressão por contato sobre papel sensibilizado de diplomas maçônicos e rótulos para farmácia e comércio. Ele fundamentou suas experiências sobre as propriedades de determinadas substâncias que eram afetadas pela ação da luz. Pelos seus manuscritos, verificamos que Berzelius e Scheele foram os cientistas que iluminaram o caminho para sua descoberta de “imprimir pela luz”. Florence cunhou sua descoberta de “fotografia” (“photographie”), ainda em 1833, seis anos antes do termo ser empregado pela primeira vez na Europa pelo astrônomo John Herschel.
O estudo dos artefatos que sobreviveram ganha sentido na medida em que forem contextualizados em relação ao meio, à cultura, à sociedade, à ciência, aos antecedentes históricos, enfim. Todas as iniciativas que possam contribuir para a identificacão dos materiais e das técnicas empregadas para o estudo dos originais fotográficos produzidos por Florence são bem-vindas.
Exemplo disso sao as análises desenvolvidas pelos investigadores mencionados na reportagem referida de início. Trata-se de projeto desenvolvido em anos recentes por meio de microscopia (fotomicrografia) e espetroscopia, entre outros procedimentos. Tais investigações, que buscaram determinar a existência de vestígios de ouro e prata nas imagens originais remanescentes, diga-se de passagem, são exatamente as mesmas que foram objeto de nossa reconstituição histórica e técnica e das análises dos laboratórios do Rochester Institute of Technology em 1976.
Em síntese, as mencionadas pesquisas confirmam, afinal, o que já haviamos comprovado há 50 anos. As análises realizadas naquela época, assim como as atuais desenvolvidas pelos citados estudiosos, incidem sobre os mesmos exemplares.
Apesar da obra de Florence se achar definitivamente inscrita nos anais da invenção da fotografia, ainda aparecem, vez ou outra, alguns que ignoram o autor que resgatou a descoberta de Florence do obscurantismo em que se mantinha por 140 anos. Quando o jornalista ou pesquisador omite as fontes históricas e científicas dos fatos, ele contribui para o apagamento da memória cultural.
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Fonte ==> Folha SP


