30 de setembro de 2026

Os aperitivos e o vazio existencial de Antonioni – 30/09/2026 – Daniel de Mesquita Benevides

Três adultos em ambiente interno. Mulher à direita em primeiro plano segura uma garrafa, olhando para ela. Mulher à esquerda está sentada, olhando para baixo, com um copo na mão. Homem ao fundo, em pé, observa as duas mulheres. Todos vestem roupas escuras.

A palavra aperitivo ou apéritif vem do latim aperire, “abrir”. Abrir o apetite. No Brasil, na França e na Grécia, abre-se o apetite com aperitivos fortes, para lá dos 40% de álcool —cachaça, pastis e ouzo, por exemplo. Já italianos e espanhóis preferem algo mais fraco: um vermute, um bitter, um xerez seco.

É uma postura sensata, assopra a intuição. Ao se perder nas brumas etílicas antes de comer, corre-se o risco de perder também a distinção gustativa. Seria melhor, portanto, acelerar aos poucos e deixar para escorregar na jaca com o bucho pleno, uma rede de segurança para a bebericagem de responsa. Aí, sim, conhaques, licores, Calvados, single malt, aquela pinga envelhecida e, não menos importante, os deliciosos coquetéis digestivos.

Dito isso, vamos ao cinema. Pois Michelangelo Antonioni, elegância máxima do celuloide, era um adepto dos aperitivos. Marcas famosas da velha bota, como Campari, Martini, Carpano e Cinzano, aparecem casualmente em seus filmes. Como no clássico “La Notte”.

É a parte central da chamada Trilogia da Incomunicabilidade, que começa com “A Aventura”, em 1960, e termina com “O Eclipse”, dois anos depois. No filme, um casal em crise existencial vaga pela noite de Milão (Marcello Mastroianni e Jeanne Moreau). Por onde vão, há quase sempre um copo ou uma taça, com o som do choque entre os gelos pontuando conversas que exalam alienação emocional.

Mas os aperitivos em “A Noite” não abrem o apetite; ao contrário, despertam um certo desapetite pela vida, o caminho melancólico para o desentendimento, a indiferença, o desespero —é uma breve anestesia para o que virá. Tudo é muito bonito, os atores gesticulam e conversam naturalmente, como se não houvesse câmeras ao redor, mas prevalece o sentimento de vazio. Mesmo com todo o dinheiro, charme e boas intenções, o amor foi parar num beco sem saída, parecem dizer os fotogramas.

Na época, o grande cineasta posou com o elenco no Terrazza Martini de Milão: ele, o casal de protagonistas e a radiante Monica Vitti. Trata-se de um rooftop bar da antiga casa de vermutes, no alto de um arranha-céu. Outros oito terraços na mesma linha foram instalados em cidades estratégicas, como Paris, Veneza e Roma, onde foi palco do lançamento de “La Dolce Vita“, de Fellini.

“As Amigas”, obra-prima anterior de Antonioni, de 1955, tem uma cena logo no início mostrando o encontro da personagem central Clelia (Eleonora Rossi Drago) com Cesare (Franco Fabrizi) para tomar um aperitivo. O pedido é Campari, bitter e Punt e Mes, que é um vermute mais amargo criado em 1870 pela Carpano, em Turim, onde se passa o filme. (A Casa Martini fica a 30 km da cidade.)

A Campari, por sua vez, escalou Paolo Sorrentino, de “A Grande Beleza”, discípulo dos cineastas italianos dos anos 1960, para dirigir um curta promocional, com Clive Owen como garoto-propaganda. Serve, quem sabe, como aperitivo aos belos filmes de Antonioni.

Bicicletta Spritz

  • 40 ml de Campari
  • 40 ml de vinho branco seco
  • 40 ml de água com gás

Coloque os ingredientes num copo highball com gelo até o topo. Decore com uma rodela de laranja.



Fonte ==> Folha SP

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